ATÉ QUANDO A CULPA SERA NOSSA?

 

 

 

Por Maurício Noriega, jornalista, comentarista do SporTV e da TV Globo.

 

Aconteceu de novo. E ainda acontecerá muitas outras vezes. Agora foi com o (muito bom) atacante do Santos Kléber Pereira. Após vociferar contra o árbitro Elmo Alves Resende da Cunha, após Vasco x Santos, o jogador afirmou o seguinte: “Algumas pessoas colocaram umas coisas que eu não falei”. Ora, eu ouvi tudo pela rádio Jovem Pan, em alto e bom som, e Kléber Pereira usou o termo bolso cheio, disse que se Elmo apitasse todos os jogos do Vasco o clube não cairia etc. Deixemos de lado as opiniões. Eu acho que não foi pênalti para o Vasco, mas daí dizer tudo o que o atacante disse, são outros quinhentos (sem qualquer alusão monetária).

Sempre foi assim e continuará sendo. O jogador fala algo que repercute mal e no dia seguinte coloca a culpa na imprensa esportiva, disse que foi mal interpretado, que deturparam suas palavras. Continuará sendo assim enquanto nós, como categoria, continuarmos nos comportando essa maneira subserviente e até certo ponto tiete com alguns jogadores e treinadores. Agora alguns deram até para aplicar broncas em colegas durante as coletivas. Pior é que muitos colegas dão risada.

Não eximo nosso lado de culpa. Algumas perguntas são vergonhosas, inadmissíveis, tamanha a falta de preparo. E por incrível que pareça, ainda aparecem microfones e bloquinhos dispostos a desmentir a notícia do colega só para não abraçar o furo e escapar da bronca do chefe na volta à redação.

É muito fácil para atletas, treinadores e dirigentes jogar a culpa de uma declaração infeliz nas costas de quem a veicula. É muito triste saber que um colega prefere embarcar na critica ao outro apenas para não perder um entrevistado ou, então, um convidado de programa.

Outro aspecto lamentável é o que eu chamaria de “fogo amigo”. Quando algum colega acusa o “pessoal da TV” de fazer isso, e o pessoal do rádio fala do “pessoal do jornal”. Tristes tempos. Como categoria, não podemos regredir, sob pena de darmos combustíveis àqueles preconceituosos que acusam o jornalismo esportivo de ser a pior vertente desse exercício profissional.

Enquanto nossas portas estiverem sendo abertas a oportunistas, aventureiros e gente que paga para ocupar um espaço nobre e digno, porque dito profissional, não poderemos evoluir. Cabe muito mais a nós, como categoria, trabalhar para que esse quadro mude. Como? Investir em preparação, atualização e lembrar que antes de mais nada, é Jornalismo. Não é porque vem acompanhado de esportivo que precisa ser diferente.