DESEMPREGO

 

 

 

 

Por Cosme Rímoli.

 

Bem, meu caro, chegou a sua vez. Você é competente, mas está aqui há mais de 20 anos e ganha quase o meu salário. Você está fora do jornal. Eu não tive nada a ver com isso”, completou, sem graça.

Foi assim que o editor de Esportes me anunciou a minha saída do Jornal da Tarde.
Depois de 23 anos de trabalho, cobertura de quatro Copas do Mundo, cinco Copas Américas, dezenas de finais de Campeonatos Brasileiros e Paulistas.

Cinco prêmios Aceesp como melhor repórter de mídia imprensa de São Paulo (2000,2001,2005,2006,2007), três vezes entre os dez melhores do prêmio Comunique-se, com votos do Brasil todo. Inclusive esse ano trabalhando no JT apenas seis meses.

Na semana que saí, em junho, duas matérias minhas tinham sido capas do jornal e outras duas capas do Caderno de Esportes. Criei com Luiz Antônio Prósperi a coluna Em Off sobre os bastidores do futebol que tem muito sucesso há 12 anos. Produzindo eu estava. E bem.

“O que fiz de errado? Isso deve ser perseguição do editor que só se preocupa em fechar na hora certa e não com a notícia”, pensei.

Tinha de culpar alguém. Mas eu estava errado.
Descobri no departamento pessoal que a minha saída — assim como a de outros vários jornalistas de qualidade e dedicação — havia sido decidida pelo cruel e anônimo sistema econômico.

“Você tinha mais de vinte anos de empresa e salário alto demais. Nós temos uma planilha que seguimos todos os anos. Quem não se encaixa saí mesmo. Não tem nada de pessoal. Seu chefe não mentiu. As dispensas nascem do departamento pessoal. É o capitalismo, relaxa.”

A explicação fria do funcionário do DP me fez encarar o que não queria enxergar. As empresas de comunicação, principalmente jornais, têm dispensado sistematicamente a grande maioria dos jornalistas mais velhos e de salários altos.

De maneira geral, a renovação é forçada visando cortar despesas. Novos jornalistas têm suas merecidas chances mais cedo do que esperavam porque as empresas querem pagar pouco, o mínimo que puder para o jornal chegar às bancas.

Não é justo, não é injusto. É a realidade.
Por isso, principalmente, para quem ama cobrir esportes no Brasil fica o aviso. Não adianta só ser competente, dar inúmeros furos, ganhar prêmios, ter o reconhecimento até da concorrência. O que vale é se relacionar bem, o que as agências de emprego chamam de network.

O fundamental para uma carreira tranqüila é conhecer os chefes dos outros jornais, de outros veículos, fazer amigos, ter alguém que brigue para lhe dar um emprego. Ficar pensando só na busca de notícias, em dar matérias exclusivas é ingenuidade.

E não se esqueça que salário alto — conseguido por reconhecimento e não caridade — se tornou ponto fraco, virou pecado ter.

Infelizmente não há um bom repórter que não conheça alguém com capacidade fora do mercado de trabalho.
Por maior que seja o nosso ego assinando matéria, falando nas rádios, aparecendo na tevê a realidade é que somos descartáveis como o jornal de ontem.

Em dezembro do ano passado minha mãe completava 70 anos e eu estava apanhando da torcida do Grêmio em Porto Alegre reconhecido como repórter paulista.

Série B. Seis meses depois eu estava na rua. Desempregado